Umbelina Zanchet "Tita" Caselani, 83 anos, segurou apertado o crucifixo, fez o sinal da cruz e proferiu uma oração em voz baixa quando a porta da Van da Penitenciária Estadual de Francisco Beltrão foi aberta e de dentro saiu o seu sobrinho e afilhado, o ex-prefeito de Realeza Eduardo Gaievski (2004-2012).
Espremida contra a grade do Fórum da Comarca, ela e mais umas 50 pessoas promoveram ontem a primeira manifestação pública em favor de Gaievski desde que ele foi preso, em 31 de agosto do ano passado.
O processo principal tem 12 supostas vítimas e há mais um processo adicional com mais nove acusações por crimes sexuais. Eduardo será inquirido a dar explicações sobre cada uma das 21 denúncias. Cinco casos são relativos a estupros de vulneráveis (meninas menores de 14 anos), os demais se referem a estupros e assédio sexual.

Parentes e amigos foram até o local porque acreditam que ele seja inocente e que a sua prisão é um exagero. "Eu vi ele crescer, estou muito triste com isso que está acontecendo. Aqui [Realeza] tava tudo parado, ele fez crescer e desenvolver. Os pobres e os velhinhos eram bem atendidos, tratava os pobres como seus próprios filhos", falou dona Tita, que diz esperar que seja feita a justiça divina e dos homens.

"Querem enterrar o homem vivo. Essas acusações são uma farsa, estão perseguindo a família. Soltaram o advogado [Fernandes], mas o filho dele [André Willian] continua preso", ressaltou o agricultor Altair Zamboni, 43 anos. Segundo ele, mais pessoas vão aderir ao movimento. "Tem gente que chora e não dorme de noite com tudo que ele está sofrendo. Acreditamos na inocência, não é isso que estão falando", completou.

“Preso do 45”

Eduardo saiu do veículo com um travesseiro na mão apontando para o número 045, numa referência ao que ele tem dito em suas audiências, de que é um "preso do 45" — o número do PSDB. O advogado Samir Mattar Assad confirmou que era a numeração que ele utilizava na Casa de Custódia em Curitiba. "Na avaliação dele, isso comprova uma certa perseguição, tendo em vista que ele é um dos maiores administradores públicos que o Sudoeste já teve e não agradou interesse de muitos."

Natalício Farias, assistente de acusação do Ministério Público, contou que nas audiências Eduardo se esquiva das perguntas e prefere fazer acusações contra terceiros e falar dos feitos como administrador público. "Fizemos 68 perguntas, mas ele não responde."



Advogado diz que processo será declarado nulo

O advogado de defesa Samir Matar Assad disse para a imprensa antes da audiência que Eduardo está tranquilo com relação à denúncia. Mattar Assad insiste que não está sendo dada a oportunidade de o réu se defender. "Tivemos uma surpresa, quando o então advogado dele deu uma declaração contra os interesses do cliente ao promotor de justiça. Isso a gente entende que cerceia o contraditório e fere frontalmente a ampla defesa. O que nós buscamos questionar é que o Código de Processo Penal seja cumprido fielmente, com todos os preceitos e garantias ao contraditório. Não podemos, como está sendo feito neste caso, julgar de maneira medieval, sem respeitar o direito de defesa."

O advogado falou ainda que as audiências duram horas e que ele tem respondido a respeito de tudo. Para Mattar Assad, o processo é nulo. "É uma nulidade que foi ocasionada pelo próprio Ministério Público, a partir do momento que ele colhe uma declaração criminosa do advogado em desfavor do próprio cliente e junta no processo. Aí você quebra a paridade de armas e o contraditório judicial. Então a gente só tem acusação nesse processo. O processo é nulo e é só uma questão de tempo dele ser assim declarado pela justiça."

O advogado explica que Eduardo também pediu o afastamento do caso do juiz Figueiredo Monteiro Neto, porque todos os seus pedidos até o momento foram indeferidos. "A partir do momento que o advogado [anterior] dele arrolou como testemunhas de defesa as mesmas vítimas arroladas pelo Ministério Público e ele tentou substituir e foi indeferido pelo juízo, quebrou totalmente o contraditório. É tão flagrante que chega agredir o bom senso. Não pode, dentro do ordenamento jurídico brasileiro, um advogado de defesa passar ao lado do Ministério Público e dar uma declaração contra o cliente e dizer que não teve prejuízo ao réu. O prejuízo é nítido."
Fonte: (http://www.jornaldebeltrao.com.br/)